Efluentes de indústrias de cosméticos e seus tratamentos

Por Ellen Kristine Silva Costa Souza- Mestranda em Biodiversidade e Conservação – Instituto Federal Goiano (IFGoiano).

As indústrias de cosméticos tem sido parte importante na economia do país, devido às características culturais há uma grande preocupação com a higiene pessoal, principalmente por parte das mulheres. Os fios de cabelo é parte do figurino tanto masculino e feminino, com isso gera grande preocupação em mantê-los bem tratados e bem apresentáveis.

O setor de cosméticos apresenta crescimento bem mais vigoroso que o restante da indústria brasileira e, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o país é o sétimo produtor mundial de cosméticos (TERRA, 2013).* Com isso vem a preocupação com o resíduo por elas gerados. Em sistemas de resfriamento, geração de vapor e, principalmente, nas operações de lavagem e sanitização de máquinas, equipamentos e utensílios, utiliza-se grande quantidade de água. Dados da empresa Natura mostram que cerca de 64,0 % da água utilizada na indústria é transformada em efluente, que necessita de um devido tratamento (NATURA, 2007).

Os efluentes são normalmente caracterizados por altos teores de demanda química de oxigênio (DQO), sólidos em suspensão, óleos e graxas e surfactantes, englobando assim compostos de reduzida biodegradabilidade e elevado potencial tóxico para organismos aquáticos.

As substâncias tóxicas presentes no efluente gerado pelas indústrias de cosméticos não possuem um tratamento adequado e apresentam imprevisibilidade na sua transformação após um tratamento, podendo se transformar em mais ou menos tóxicas. É possível também que a toxicidade não seja removida, mas apenas transferida da fase líquida para a fase sólida (lodo gerado no tratamento).

Devido às misturas complexas de substâncias químicas utilizadas, geram efluentes com característica tóxica aos seres aquáticos e humanos. Com isso o ambiente aquático tem sofrido sérios danos, devido à geração e descarte inadequado desses efluentes líquidos gerados nas indústrias.

O impacto gerado pela produção de cosméticos não se dá somente no processo de produção, mas também na liberação junto ao esgoto doméstico, após utilização, pela população, de produtos fabricados (TOLLS et al., 2009). Produtos de cuidados pessoais, incluindo os cosméticos, são considerados os compostos encontrados com maior frequência nas águas superficiais em todo o mundo (BRAUSCH&RAND, 2011).

Como a preocupação com a degradação do meio ambiente vem aumentando com o passar dos anos, devido às alterações climáticas e ao esgotamento dos recursos naturais e as atividades industriais tem sido uma das principais fontes dessa degradação, estudos têm sido realizados, para encontrar de formas adequadas e eficientes no tratamento dos resíduos gerados por essas atividades.

O tratamento dos efluentes líquidos de indústrias de cosméticos tem sido objeto de muitas pesquisas, principalmente por processos físico-químicos. De acordo com a avaliação da eficiência de remoção de DQO e do custo, calculados para implantação e funcionamento, El-Gohary et al. (2010) afirmaram que o pré-tratamento desses efluentes por meio de coagulação química seguida de precipitação ou flotação por ar dissolvido apresenta eficiência semelhante a processos oxidativos, porém com um custo menor. Esse tipo de tratamento remove matéria orgânica particulada e reduzem a toxicidade dos efluentes, mas têm pouco efeito sobre a matéria orgânica solúvel.

O tratamento por processos biológicos convencionais, os mais usados para efluentes com grandes cargas orgânicas, não tem sido considerado uma opção viável, devido às características do efluente, que contém substâncias capazes de inibir a atividade de diferentes grupos de micro-organismos responsáveis pela completa degradação da matéria orgânica (PUYOL et al., 2011). Ademais, no tratamento biológico, as substâncias podem ser adsorvidas na superfície do lodo, limitando a transferência de substratos solúveis e de oxigênio para a biomassa microbiana (MELO, 2012).

Assim, por mais que na produção dos cosméticos utilizem-se os mesmos tipos de reagentes, os efluentes gerados podem apresentar características distintas, e exigir tratamentos específicos para cada indústria.

* Dado mais recente: Segundo o provedor de pesquisa de mercado Euromonitor International, o Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo — entram aí de cosméticos para cabelo e pele a perfumes e produtos para higiene bucal. O país fica atrás de Estados Unidos, China e Japão (os dados são de um relatório de 2019, relativos a 2018). Na categoria de fragrâncias, os brasileiros estão em segundo lugar, atrás apenas dos americanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAUSCH, J. M.; RAND, G. M. A review of personal care products in the aquatic environment: Environmental concentrations and toxicity. Chemosphere, v – 82, p. 1518 – 1532, 2011.

EL-GOHARY, F.; TAWFIK, A.; MAHMOUD, U. Comparative study between chemical coagulation/precipitation (C/P) versus coagulation/ dissolved air flotation (C/DAF) for pre-treatment of Personal Care Products (PCPs) wastewater. Deaslination. v. 252, p. 106- 112, 2010.

MELO, E. D. Avaliação e identificação da toxicidade de efluentes líquidos de uma indústria de cosméticos. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós Graduação em Engenharia Civil)– Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, 2012.

NATURA. Relatório anual 2007. São Paulo, 2008, 126 p.

PUYOL, D.; MONSALVO, V.M.; MOHEDANO, A. F.; SANZ, J. L.; RODRIGUEZ, J. J. Cosmetic wastewater treatment by upflow anaerobic sludge blanket reactor. Journal of Hazardous Materials, v. 185, p. 1059 – 1065, 2011.

TERRA, 2013. [Site]. BRASIL: Setor de higiene e beleza cresce em média 10% ao ano. Disponível em: <http://economia.terra.com.br/operacoes-cambiais/operacoes- empresariais/brasil-setor-de-higiene-e-beleza-cresce-em-media-10-ao- ano,0e9672f8f3a0f310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 14 ago. 2013.

TOLLS, J.; BERGER, H.; KLENK, A.; MEYBERG, M.; MULLER,R.; RETTINGER, K.; STEBER, J. Environmental Safety Aspects of Personal Care Products – A European Perspective. Environmental Toxicology and Chemistry, v. 28, n. 12, p. 2485 – 2489, 2009.

 

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